Uma brisa leve sopra dentro de mim... Estou, finalmente, tranquila.
Um estado de paz que há meses não experimentava e todas as emoções, os perfumes, os encontros, os sorrisos de natal...
Isso é paz. E só hoje sei o valor desta sensação. Deste envolvimento familiar tão doce e aconchegante.
Estou em paz.
Encontrei minha avó bem fraquinha e meu coração se aperta ao pensar que dia 06 virá uma sentença de morte ou um grande alívio. Mas não vou pensar nisso agora. É natal e estou com ela.
Os amigos estão tão próximos e me fazem muito feliz. Os telefonemas... os abraços... as mensagens dos amigos do blog...
Que bálsamo!
Tudo em mim hoje é uma prece de muito amor e agradecimento.
É engraçado voltar a uma vida que não é mais nossa. Mergulhar lentamente nos problemas de família dos quais estávamos tão afastados e perceber que toda a capacidade de nos envolvermos, de sentir e compartilhar está toda dentro de nós.
Ainda estou na casa da mãe dele e, pelo visto, só amanhã à noite abraçarei os meus... Aqui também existem problemas e o natal não será tão feliz.
Tudo aqui dentro está silencioso, respiração lenta e pesada, sorriso tristonho. Estou meio anestesiada. Esperando o futuro.
Após dois dias, às vezes fecho os olhos e penso se não é tudo um sonho do qual eu posso acordar. Gostaria de chegar em casa e abraçar minha avó sem este peso de toneladas nas costas. Sem esta angústia entalada na garganta.
Eu queria que este natal fosse como os outros. Eu queria que todos estivessem realmente felizes e saudáveis.
E ao lembrar que há sete dias escrevi um post iniciando minha contagem regressiva, um desejo muito grande de encontrar tudo como deixei me assaltou. E vejo que era uma espécie de pressentimento velado aquela ansiedade.
Infelizmente, nesta vida, a gente sempre se prepara para o melhor e não para o pior...
Estou indo pra casa, como quem vai se despedir da vida que sempre teve.
Talvez o último natal, talvez o último ano novo e esta sensação horrível de um futuro certo e sombrio. Como devo me comportar diante da certeza de uma última alegria? Como vou olhar aqueles olhos sem chorar? Quantas vezes mais eu os verei abertos após voltar?
Nada é capaz de me consolar ou me fazer sorrir. Como vou conseguir abraçá-la, voltar-lhe as costas e voltar pra este lugar? A data está tão longe e eu já sinto todas as dores a cada pensamento.
Um grande vazio me toma imaginando que a luta pode recomeçar e que desta vez a derrota é certa e eu vou estar longe, não vou segurar-lhe a mão ou velar-lhe o sono....
Meu Deus, que desespero........
Esta vida é irônica. Alegria suprema e dor infinita em menos de três horas...
Esta vida é muito irônica.
Eu deveria estar comemorando agora. Chegado em casa, feito uma prece de agradecimento à Deus. Deveria estar num show, entre amigos. Deveria dormir sorrindo, com aquela afliçãozinha gostosa que sinto quando não consigo me controlar e começo a pular e gritar como uma criança feliz.
Sim... eu consegui...
Depois de um ano e meio, eu consegui...
Era tudo que eu desejava e eu consegui...
E, de repente, o que isso importa?
Por que minha mãe foi tão imprudente em me dar a notícia de uma maneira tão cruel? Por que ela quis me agoniar desta forma se faltam apenas dois dias para eu estar em casa e enquanto tudo não passa de hipótese? E agora, enquanto eu escrevo, quem vai enxugar minhas lágrimas? Quem vai sossegar este desespero sufocado?
Todos os dias eu me preparo para este momento e hoje eu vi que não estou preparada merda nenhuma. E quem pode se preparar para perder a pessoa que mais ama nesta vida? Todos os pensamentos desesperados me ocorrem. Uma fraqueza de espírito me invade e eu só consigo chorar, chorar, chorar...
Uma ebulição de perguntas! Aquelas perguntas sem sentido e sem resposta que todos fazemos em horas de dor. Muitos "Por quês" apesar da razão tentar me convencer que Deus é sempre justo. E eu sinto vontade de blasfemar e gritar com este Deus que me dá tudo e tenta me tirar o que de mais valoroso eu tenho...
"Ó meu Deus..." - então imploro humildemente - " ... não deixe que isso seja verdade..."
Hoje eu tive uma amostra de como vai ser o dia mais triste da minha vida...
Meu coração está metade em casa e metade no futuro que anseio, não sobrando nada neste presente que, de presente só tem o nome. Sexta-feira-sexta-feira-sexta-feira... não consigo pensar em mais nada. Dá aquele frio na barriga e só desejo que tudo fique exatamente como está até que eu chegue: vivos, felizes, com saúde.
E o resultado da entrevista? (Afff.... é muita angústia pra uma pessoa só). SEXTA-FEIRA também!
Talvez aquele filme (Simplesmente Amor) tenha criado esta ebulição em mim... Está tudo latejando, estou inquieta, sensível.
E além de TUDO, e como se não bastasse TUDO, é NATAL!!!!!!!!!
Querem coisa pior que clima de Natal pra quem está longe de casa?
Consegui passar em um mestrado e fiz duas entrevistas para emprego esta semana. E apesar de conhecer as terríveis conseqüências de uma frustração, já estou novamente cheia de esperanças por uma vida nova.
É assim que sou: ou em desânimo completo ou em completa alegria, preciso de pouco para ser feliz e de pouco para estar triste também. Este grande defeito, esta impulsividade constante, tem causado ao meu estômago muitas dores e começo a acreditar que pode ser uma gastritezinha sempre (quase diariamente) aliviada às custas de remédio.
P.S.: Hoje começa a contagem regressiva para sair da Loiroslândia. Faltam só SETE dias... a semana mais comprida de tooooooooooooooda minha vida.
Domingo fui em busca de tranqüilidade.
E mesmo com duas companhias (ele e mais um amigo) eu estava só e nenhum espírito aventureiro me inspirou quando sugeri que percorrêssemos uma trilha de cachoeiras. Eu apenas queria um refrigério, queria paz e distância de tudo que me é tão comum e me faz agitada.
Felizmente o caminho estava interditado à 4ª cachoeira, pois o preparo físico (inexistente) com certeza não me deixaria atingir a 14ª.
Fiquei surpresa com aquele lugar deserto que, a quem interessar, chama-se Corupá. E me joguei ali naquelas pedras com todos meus sentidos absorvidos por um espetáculo que tão poucas vezes pude apreciar. O vento fresco que trazia uma chuvinha fininha da água revolta para me molhar o rosto, o cheiro de nada, o barulho da queda e dos pássaros, os paredões verdes... tudo perfeito.
Fiquei ali parada, sentada, sentindo. As lágrimas vieram e abri todo meu coração para Deus. Pedi a Ele que me faça forte como aquelas águas que tudo vencem. Que não me deixe abater ou desviar. Que não seja impedida por meus medos de ser feliz e de crescer...
E então entreguei a toda aquela natureza grandiosa o meu pedido. Depositei ali minhas dores, receios e desejos como quem desabafa com um mãe e sei que fui ouvida.
Trouxe comigo muita paz e, embora me sinta cansada pelo desespero infrutífero que crio e que serve apenas para me exaurir as forças, tento enxergar novamente o lado bom das coisas.
E ontem o telefone tocou com uma boa notícia. Estou quase sendo aceita em um mestrado. Área diferente da dele, o que me deixa meio apreensiva. Esqueci o que é estudar e correr atrás das coisas sozinha. Mas talvez o que parece ser uma sentença de solidão ainda maior, já que ele ficará totalmente absorvido pelo trabalho e pelo mestrado, seja minha chave para liberdade, pare reencontrar minha força e capacidade.
Como na história da vaquinha.... talvez ele seja a minha vaquinha...
P.S.: Para quem não conhece a história da vaquinha....
Um Mestre da sabedoria passava por uma floresta com seu fiel discípulo, quando avistou, ao longe, um sítio de aparência pobre e resolveu fazer uma breve visita. Durante o percurso ele falou ao aprendiz sobre a importância das visitas e as oportunidades de aprendizado que temos, mesmo com as pessoas que mal conhecemos.
Chegando ao sítio, constatou a pobreza do lugar. Sem saneamento, casa de madeira. Os moradores; um casal e 5 filhos, vestidos com roupas rasgadas e sujas. O Mestre aproximou-se do senhor, aparentemente o pai daquela família e perguntou:
-Neste lugar não há sinais de pontos de comércio e de trabalho. Como o senhor e a sua família sobrevivem?
E o senhor calmamente respondeu:
- Nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos e a outra parte produzimos queijo e coalhada para nosso consumo. Assim vamos sobrevivendo
O Mestre agradeceu a informação, contemplou o lugar por alguns momentos, despediu-se e foi embora. No meio do caminho, voltou-se para seu fiel discípulo e ordenou:
- Aprendiz, pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali na frente e empurre-a, jogue-a lá embaixo.
O jovem arregalou os olhos espantado e questionou o mestre sobre o fato da vaquinha ser o único meio de sobrevivência daquela família, mas, como percebeu o silêncio absoluto do Mestre, cumpriu a ordem. Empurrou a vaquinha precipício abaixo e a viu morrer.
Aquela cena ficou marcada em sua memória durante anos. Atormentado pela cena, resolveu largar tudo o que estava fazendo, muitos anos depois, e voltou àquele lugar decidido a contar tudo e implorar perdão à família.
Ao se aproximar do local, avistou um sítio muito bonito, com árvores floridas, todo murado, carros na garagem e algumas crianças brincando no jardim. Sentiu-se triste e desesperado imaginando o triste fim que tivera aquela humilde família, após o fatal "acidente" com a vaquinha. Ao chegar no portão, foi recebido por um caseiro muito simpático e perguntou sobre a família que ali morava há alguns anos atrás. O caseiro respondeu:
- Continuam morando aqui.
Espantado ele entrou correndo na casa e viu que era mesmo a família que visitara antes com o Mestre. Elogiou o local e perguntou ao homem:
Como o senhor melhorou este sítio e está tão bem de vida agora?
O senhor entusiasmado, respondeu:
- Nós tínhamos uma vaquinha que caiu no precipício e morreu. A partir de então, tivemos que fazer outras coisas, desenvolver novas habilidades que não sabíamos possuir, e assim alcançamos o sucesso que seus olhos vislumbram agora
Todos nós temos uma vaquinha que nos dá alguma coisa básica para a sobrevivência e convivência com a rotina. .