Complicada, eu??? Sexo frágil, sim. Quando eu quiser. E daí?
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
As vezes tenho vontade de fazê-lo sentir tudo o que sinto.
Mas não consigo...
Fazê-lo sentir este amor que chora na noite enquanto sorri no dia. Que carece e não ganha. Que deseja muito calado, mas aprendeu a festejar o pouco se convencendo de que este pouco, pode ser o tudo dele. Que poda suas exigências e prefere se abrir com ninguém a tecer velhas reclamações.
Este amor que ganha sementes e as faz árvores. Que encontra mil justificativas para continuar sendo amor.
Este amor que se sabe construído e não mágico. E que se pune por ter sido feito assim com tanto sacrifício, subjugando dúvidas e ignorando opções e hoje, se acha grande demais para simplesmente ser esquecido.
Meu amor quer...
Quer muito, muito. Muito mais do que tem.
Caprichoso, ele quer ser amado igual.
Mesmos mimos, carinhos, dengos.
E, sem isso, ele deseja punir.
Queria fazê-lo sentir o que sinto.
Fazê-lo experimentar um pouquinho destas vontades, deste desejo angustiante.
Mas não consigo, pois, por mais que eu represente um papel "frio", o que há em mim transborda...
Sexta estou indo pra casa novamente. Será uma despedida destas longas férias. Como a vida é cheia de escolhas, o novo trabalho irá suprimir meus dias felizes de longos descansos em casa. Mas não vou reclamar.
O carnaval será entre amigos e Ituiutaba até segunda. Depois, uma semana de colo de mãe.
E ele? Vai ficar aqui na Loiroslândia.
Férias dele novamente!
posted by Manga Rosa|
9:24 AM
Se às vezes me afasto, é porque tenho meus motivos.
Ou melhor, é que me faltam os motivos.
Não sei o que sinto ou o que penso.
Cessada a ebulição, chegam os momentos de espera. Talvez eu já esteja vivendo amanhã.
Ou talvez apenas esperando sexta, quando vou novamente pra casa.
A ALEGRIA MANSA (trecho)
Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranqüila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me consolo dessa simples e tranqüila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.
Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.
Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça com a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo que, com essa pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor. Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei - e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo a Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa. (Clarice Lispector)
Estou novamente com aquela estranha sensação que me acomete ao conquistar algo muito desejado. É uma alegria meio boba, uma estranheza com o novo, como se tudo fosse um sonho.
Finalmente o emprego que planejei ter há dois anos atrás...
Ao invés da sensação de orgulho ou vitória que coroa os vencedores, o que carrego é uma grande gratidão. Ao invés de "eu consegui", só sei dizer "eu ganhei, fui abençoada". Nada fiz além de desejar. Desejar com um desejo forte, que às vezes esmorecia para brotar novamente.
De alguma forma sinto que estou me libertando, embora não saiba bem de que. E às vezes me parece bobagem estes marcos que traçamos nas nossas vidas. O que vai mudar realmente?
Amanhã, vou ter que avisar no trabalho sobre o abandono das aulas dentro de um mês. Também precisarei desistir do mestrado. E dá um frio na barriga esta mudança de rumos. Abandonar ou talvez adiar a carreira acadêmica que me surgiu à frente com tanta facilidade desde o começo, quando tantas portas se abriram sem grandes esforços, tantas pessoas me ajudaram e eu, sempre insistindo no outro caminho, sempre reclamando.
Como se eu tivesse vencido Deus pelo cansaço, temo ter escolhido o pior, mas sinto que preciso da experiência. Principalmente porque estou muito ansiosa para ajudar minha família.
E espero que Ele me abençoe e proteja nesta nova fase, neste novo trabalho.
Em oito Março, se abre pra mim outro mundo.
Em relação a todos os atos de iniciativa e de criação,
existe uma verdade fundamental cujo desconhecimento
mata inúmeras idéias e planos esplêndidos:
é que no momento em que nos comprometemos definitivamente,
a Providência move-se também.
Toda uma corrente de acontecimentos
brota da decisão,
fazendo surgir a nosso favor
toda a sorte de incidentes, encontros e
assistência material
que nenhum homem sonharia que
viesse em sua direção. (Goethe)