Aquele dia, quando conversamos, critiquei-lhe o jeito ¿frio¿, tão alheio aos sentimentos dos outros, um jeito que cuida do corpo, mas prefere não enxugar lágrimas ou ouvir lamúrias. Lembro-me que ele disse que a vida muda muito a gente, que eu não afirmasse ¿isso nunca acontecerá comigo¿, pois poderia tornar-me mesmo pior que as pessoas a quem julgava.
Hoje sei que foi um julgamento falso...
Hoje eu entendo aquele coração.
Entendo e admiro, pois sei que ele é muito melhor que o meu.
É o meu coração que está se fechando.
Aliás, ele nasceu fechado.
Ele é cheio de amor e, no entanto, fechado.
E isso me traz uma dor muito grande, pois as pessoas não podem ver o que não é exteriorizado por palavras ou gestos.
De todas as coisas que me feriram e ferem, nada machuca mais do que pensar que sou vista como fria ou insensível. Só Deus sabe o quanto choro sozinha pelo sofrimento alheio. Só Deus sabe quantas vezes, ou melhor, todas as vezes que guio minhas decisões pelo coração. Só Deus sabe o quanto me machuco pra não machucar os outros. E só Deus sabe todos os pensamentos de amor, fraternidade e compaixão que envio para meu próximo, para minha família.
Mas o que adianta só Deus saber?
Queria muito ser ¿aquele¿ tipo que as pessoas gostam. Queria muito, muito, ser diferente.
E se nunca consegui, agora está mais difícil ainda...
As paredes estão ficando maiores, desta vez, para me defender.
Defender-me do que espero e não acontece.
Defender-me do que sonhei, mas não vai se realizar.
Defender-me das decepções que já coleciono.
Por que querer que os amigos te liguem se eles vão sumir todos com o tempo? Por que cultivar lembranças do passado se elas estão cada vez mais amareladas? Por que chorar se não há quem me enxugue minhas lágrimas? Por que sentir saudades da família se eles nunca estão perto de mim? Por que desejar um abraço, um conselho, alguém que te entenda e dê um carinho se estas pessoas não existem? Por que desejá-lo se ele tem coisas mais importantes pra fazer?
E então, eu me defendo...
Defendo-me esquecendo...
Defendo-me não chorando...
Defendo-me não sentindo saudades...
Defendo-me não desejando-o...
Angústia (...) pode ser (...) não ter coragem de ter angústia -- e a fuga é outra angústia.¿ Clarice Lispector